A minha musica

Escrever sobre uma canção não é fácil, porque há muitas musicas que nos vão marcando ao longo da nossa vida.
..........Mas há um conjunto de quadras populares que me ficaram gravadas na memória ainda eu era muito criança. Nos finais da década de cinquenta e principio da década de sessenta ainda eu vivia no Alentejo com os meus pais.
..........O meu pai trabalhava no campo a lavrar a terra para depois semear o trigo, nesse tempo usava-se a "charrua" e as "mulas" para fazer esse trabalho que era bastante pesado.
......Andava o trabalhador  do nascer ao pôr do Sol agarrado á "charrua" e a comandar as "bestas" para com o andar  e a força   delas a "charrua""rasgasse " a terra para nos "regos" se depositar as sementes e se voltasse a tapar para mais tarde as sementes nascerem e formarem uma linda seara.
..........Era um trabalho muito duro!!
...Mas a alegria acompanhava sempre os trabalhadores.
Eu lembro-me de ouvir o meu pai cantar enquanto trabalhava, cantava quadras populares como esta:
 
 
.O Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do Céu,
Senta-te aqui Amor,
Á sombra do meu chapéu.
 
.................E as mulas também gostavam de ouvi-lo cantar, porque começavam a andar mais devagar,  o meu pai quando acabava  a "cantoria" falava com elas e dizia:  Anda mula anda "Bonita" toca a despachar para irmos ver do almoço.
Temos de deixar este canto todo lavrado porque á tarde temos outro sitio á nossa espera.
.............Quando eu ouvia esta conversa já sabia que estava na hora do meu pai me vir buscar debaixo da azinheira onde me tinha deixado de manhã e onde eu me mantinha a brincar feliz e contente.
......................................Depois do almoço o meu pai ia dormir a sesta para  ganhar energia para ir trabalhar o resto da tarde.
Depois do merecido descanso lá íamos nós e as "mulas" para o campo, eu ia brincar e dormitar á sombra da azinheira e o meu pai lá ia empurrar a "charrua " até ao pôr-do-Sol , mas sempre com a mesma alegria,de vez em quando lá o ouvia eu a ralhar com as "mulas" que já iam a ficar cansadas de tanto  puxarem pela "charrua" e antes de acabar o dia lá ouvia eu mais uma cantiga.
 
 
Ceifeira que andas á calma,
Á calma ceifando o trigo,
Ceifa as penas da minha alma,
Ceifa-as e leva-as contigo.
 
No fim do dia com o corpo bastante cansado mas com a alma leve lá voltávamos para casa onde a minha mãe tambem  estava a chegar do trabalho e preparava-se para fazer o jantar, muitas vezes era apenas uma açorda com uns ovos cozidos e umas azeitonas, e sabia tão bem!!
.................Ao serão ainda havia tempo para conversar, saber como tinha corrido o dia de cada um de nós, saber com tinha corrido a escola do meu irmão que saia bem cedo de casa para andar muitos "km" até chegar á escola.
 E chegava um pouco mais cedo que os meus pais, a não ser que fosse aos ninhos e se esquecesse das horas.
.............Ao serão o meu pai lia para nós os três, mas eu continuava a ouvir as cantigas que durante o dia ele cantava para alegrar o trabalho.
........Agora já ninguém canta no trabalho porque o trabalho é uma "chatice" e faz-se por obrigação, e quando há musica é um aparelho nos ouvidos que isola as pessoas umas das outras e as afasta da realidade.
É um mundo muito mais fechado e triste.
...Eu tenho muito boas lembranças dos meus tempos de criança e de como era bom ter os meus pais sempre perto de mim e sem ter preocupações.
Por isso a minha canção são as quadras que ouvia o meu pai cantar ,essas nunca vou esquecer de certeza absoluta..
E acabo com esta que ele cantava muita vez:
 
Abalei do Alentejo,
Olhei para trás chorando,
Alentejo da minha alma,
Tão longe me vais ficando.
 
Texto real escrito para:    http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/
 
publicado por linhaseletras às 00:59
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